segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Bassan, meu bom amigo palestino

Descobri sempre de que tenho saudades de Bassan.
Nao me lembro de como o conheci. So que, de um repente, nos tornamos amigos.
Ele, que comecou a me contar sua vida, melancolico.  A quem eu regressava ao seu povoado, do lado de la, longe, onde chamamos, insistentemente, Palestina.
Bassan me contou de que ja nao dormia mais com a esposa e, caso se separasse, ela seria a vitima, expulsa de casa, e renegada pela comunidade.  Entao lhes cabia o sofrimento de viverem num teto que ja nao era mutuo, aparentemente por causa dos filhos.
Eu acreditava em sua visivel tristeza, e no jeito de me chamar, com seu sotaque caracteristico.  Alem de eu gostar muito do nome Ana, ele era realmente feliz saindo dos labios desse meu amigo.
Numa das homenagens mais emocionantes a qual presenciei, o tributo a memoria de Juliano Mer Kramis, levei-o comigo. Eu poderia jurar que ele nao se sentiu a vontade, e ate teve um certo receio. Que desculpo, pois se as proprias criancas que foram parte do Teatro da Juventude, dirigido por Juliano, nao tiveram permissao do governo israelense para virem a cerimonia, porque se sentiria um palestino a vontade.
Meu maior momento de contradicao era quando o levava para casa.  Eu viajava por alguns quilometros e, subitamente, parava num posto de controle de entrada e saida de palestinos, onde me faziam minusculas perguntas de praxe, ate desnecessarias pela presenca de um carro com chapa israelense. Seguiam-se cem metros continuos com o carro e, entao, meu confesso atordoamento.  Ao cruzar a esquerda, quase imediatamente, havia aquela placa, em frente aos olhos, como uma certeza : " Proibido continuar, risco de morte ".
Varias vezes, fiz o caminho de volta pensando em como seria, caso eu continuasse o trajeto.  Nao que Bassan nao me pedisse para parar o carro antes de chegar a placa, ou que eu nao seja uma alma transgressora, como o sou.
Simplesmente fiz o correto.  O que nao esmoreceu, em momento algum, minha indignacao por aquelas palavras, escritas tambem, e logico, em arabe, acessiveis a qualquer crianca em idade escolar.
O quanto me senti culpada ao, simplesmente, voltar, e ter a liberdade de circundar por onde fosse, cabeca ao vento, desejo e manias.  Que nenhuma barreira pudesse me impedir de transpor.
Bassan transpirava carencia, e seu povoado, provavelmente, era menor do que seu coracao.  Queria mais do que os segredos do Alcorao, mesmo o respeitando.  E me repetiu, varias vezes, de que nao havia no livro sagrado qualquer mencao ao suicidio por sacrificio.  No qual acreditei, nao pelos ditos do mesmo, mas pelo afeto depositado em nossa amizade.
Ana, nao esquecerei. Muitas vezes me recordo dele, do qual guardei uma bonita fotografia, fiel ao homem que era.
Por onde andara Bassan ?  E outros, que tem seus desejos castrados por imposicoes que lhes violentam a vontade ?   Porque, necessariamente, o culto obscurece as boas acoes individuais, e deixa individuos ordinarios em seu modo de pensar ?
Porque ha criancas privilegiadas, em boas escolas, nutridas pelos incentivos de uma sociedade que nelas investe, e outras resignadas a viverem em povoados onde, ao inves de serem benvindas, as pessoas sao convidadas a morte ?
Ha um principio basico que gera as guerras.  A falta de generosidade para com o outro, e o nao olhar para uma crianca.
Nao se basta leva-las a um hospital, se dele elas necessitem.  A atitude e heroica, mas contumaz.
As flores precisam de carinho, agua fresca, e de se saberem seus nomes, uma apos outra.  E que seu local de moradia nao seja sinonimo de nao vida.
Bassan, minha sempre saudade.  Torco e anseio para que o destino lhe tenha sido caridoso.  Tenho certeza de que apareci em sua memoria, algumas vezes.  Senao por outro motivo, porque lhe trouxe um ar fresco de mulher emancipada, com uma postura diferente frente as vicissitudes da vida.
Passaram-se anos, e e Bassan que eu gostaria de encontrar.  Meu bom amigo palestino.
Fiel a si mesmo.
Shukran.  Quem sabe, por ai.

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