sábado, 24 de fevereiro de 2018

Velhice ( O perceber dos dias contados )

Era uma vez aquela moça que morava em seus sonhos.  Cabelos molhados, e um discurso de poesia em sua cabeça.  Fragmentos do passado, num mundo em que se alternavam as agrúrias do presente.
Espelho na mão, dias contados para o futuro incerto, apenas a certeza dos momentos a se passarem, indefinidamente.
Num átimo, a realidade batia à porta, pedindo o imponderável, presente a desaparecer.  Mas a poesia se sobrepujava ao medo dos eternos ruídos dos relógios que não param ou, tampouco, se escondem.
Deixem-me ir, e não estarei sozinha, apenas somente em face com a morte.  Abandona-me o sorriso dos tempos e noites mal dormidos, já que não terei alguma resposta, se preciso me fôsse perguntar.
Por onde se sinta o aroma do verde na relva e ar puro que me rodeie, conheço os presságios do futuro, em minhas rugas que chegam a denunciar o correr dos meus dias, brigando em contornos suaves, pela geografia de meu rosto cansado.
Como se soubesse, em que minha carne clame por antigos desejos.  Sigo ao vento, alegre, pois não posso ser outra.
Viver, somente delírio, fato antes nào consumado.  Morrer, brincadeira no estar vivo.
Pensando no antes, a porta aberta à carruagem, meu primeiro baile à fantasia.  A orquestra a tocar e eu, leve, a me deixar levar sob seu ritmo.  Rodar, rodar, me desgovernando, meus sentidos desafiados.
Morrer, o que, de nada, restará.  Aos pássaros seus cantos, às orgias suas preces e, a mim, o perpassar de uma estória que se acabou.

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