Sobraram poucos vestigios de realidade. O mundo se deixou dominar pelas sombras, e só a escrita se fêz tomar conta no papel.
Eu era criança, e não conhecia sonhos. Queria a fatalidade do encontro por eles percorridos, e me deixar levar na descoberta de dias que seriam meus. Deveriam sê-los tão somente, a mim.
Águas se passaram, me morri aos poucos, mas também conheci felicidades. Existe um sopro de misterio em cada pergunta que não cala, e imagens de santos, sempre fadadas à piedade. Aventurei-me.
Quantos mares navegados só, Helena. Sem sua bússola ou âncora, mas me vem à memoria nossos alegres retornos da escola, desfilando pela rua encompridrada. Sou fiel aos bons momentos, filha de criação.
Helena, vivi por voce a ousadia dos esconderijos das ruelas e ruas, por onde seus sapatos de cetim não passariam. Fui à quitanda, e experimentei o gosto das frutas; ao acougue, e cortei a carne dos bichos, com minhas mãos, ávidas.
Helena, minha mãe, acumulei mais devoção quando ouvi o relato daquela criança vizinha, que houvera contraido poliomielite, e ficado paraplégica para sempre.
E, fruto de uma traquinagem, ou não, me lancei, heroicamente, de um pequeno parapeito, tendo, como consequencia, alguns pontos costurados no queixo.
Helena, na verdade, o que fiz foi por mérito proprio. Sem sua cumplicidade, dedicação ou amor. Sao meus feitos.
Fico pensando que, hoje, uma criança conheca o predio ou casa aonde more, e o playground vizinho. Eu conheci uma area imensa, um campo de baseball, aquela casa instigante, a sede do Corinthias e seu baile de Carnaval, os dois irmãos lindos que eram meus vizinhos, a padaria, e o bar em frente.
Momentos doces, resgatados da memoria, parte de estoria. Helena, conto-lhe agora.
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